Presente contraído, tempo de ouvir
Ricardo
Corrêa de Sá e Benevides
Professor
de Canto Gregoriano. Mestre e Doutor em Comunicacão e Cultura pelo Programa de
Pós-Graduação de Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de
Janeiro.
Introitus
Centro
agitado, Dublin, pessoa circulam sem olhar ao redor, atenção posta em suas
próteses conectantes, comportamento autista funcional. Em contraste, a observação
silenciosa do pôr-do–sol nos minutos que antecedem as Vésperas.
Situações
em que um ritmo, hoje raro, e seu silêncio se fazem necessários, sejam como
presentificação e preservação de, ao menos, uma tranqüilidade face aos excessos
urbanos conectantes, sejam como constituintes de uma admiração face à beleza da
natureza ou, antes de tudo, na preparação para a comunhão com Deus na oração
pessoal e coletiva.
Todas
se realizam num tempo não habitual, mesmo “atemporal” em nossos dias saturados
em que se pode observar pessoas que acreditam depender de seus celulares,
“conectando-se” à custa da perda da comunicação, tirando mais um selfie vazio, febrilmente interagindo
com quaisquer informações sem reflexão, calculando e simulando. Neste frenético
tempo, envolve-se o mundo numa rede que tudo reduz a espetáculo imanente, arena
de cálculo ou mera informação.
Tempo
em que se destacam elementos comuns: a euforia na qual subjaz uma inquietação
crônica, manifesta na incapacidade de parar, ver e ouvir, e o permanente medo
da perda que impulsiona e justifica o uso incessante de ferramentas on line de sumulação
No
que se tornou este presente contemporâneo? A que ponto passamos procurações às
midias portáteis e como elas alteram nosso processo cognitivo, nossas vidas e
paz interior? Contudo, diante dele percebo, fugaz ou constatemente, a
permanência de algo que insiste em dizer que esta experiência dominante não é solução,
esperança, muito menos a “qualidade de vida” tão sonhada no melhor dos mundos.
Este
texto nasce da escuta desta voz permanente.
1.
O tempo fora do campo
Sentimos uma passagem:
a do tempo; nele, abre-se a possibilidade de nos percebemos como constituintes
de sua definição; habitualmente pensado como exterior, um quê mensurável
regularmente pelos relógios, o tempo, contudo, nos questiona em cada um de seus
instantes: os minutos do atleta, do executivo pressionado, do adulto viciado em
redes sociais, da reflexão sobre uma idéia e do monge na liturgia não são os
mesmos, apesar dos abstraídos e inalteráveis sessenta segundos.
Este tempo compõe uma “passagem-paisagem”
em diferentes densidades: pode ser uma tela branca pintada com água do mar ou
coberta de excessivos desenhos em cores berrantes. Sua matematicamente
abstraída expressão visual no relógio não cessa em sua precisa e impertubável
passagem; no entanto, somos nós que povoamos seus intervalos, densificando ou
esvaziando-os: mesmo o mais helvético dos relógios necessita de um ser humano
que o ponha a funcionar, que lhe dê finalidade, acerte, realimente, para nele
dispôr seus instantes de atividade e pensamento em temporalidades não
cronológicas. Sobre um pulso regular, a irregularidade.
O nosso tempo passa se
articulando com uma cultura orientada por vetor cada vez mais comum e
prioritário: o da aceleração, marcada por uma vertiginosa sucessão de eventos
descartáveis, que se perdem às portas da memória...eis sua face mais exposta e
coletivamente percebida. Os dias e anos parecem contradizer as durações
habituais, os relógios mecânicos, em formato circular, vêem seus raios e
circunferências diminuirem.
Mas, outros ritmos e
conteúdos coexistem à aceleração e sua sucessão: nossas impressões, memórias,
linguagens, cálculos, emoções, idéias e ações se organizam e se articulam de
formas bem mais complexas, em sua dinâmica quotidiana, mediante alternâncias, repetições,
sincronias, pausas, movimentos contrários e invertidos, tal qual no mais
complexo contraponto barroco.
Nosso pensamento, ator e continente destas relações e dinâmicas, processos e
ritmos, se contrai e descontrai, segue em ritmo, regular ou irregular, impulsos
e repousos, arsis e thesis.
Neste contraponto vivemos,
em diferentes graus de concentração das dimensões temporais; experimentamos e
elaboramos nossos presentes, enquanto se tornam passados; sonhamos e simulamos
os possíveis futuros, ou os experimentamos com suas surpresas, enquanto se
tornam os próximos presentes. As dimensões e seus eventos formam vozes
contrapontuais; a cada instante em que as representamos, elas nos incluem e por
nós são incluídas em mobilização recíproca.
Para além do tempo
medido, pensamos e construímos o tempo e, ao nele pensarmos, percebemo-nos como
composição e, ao mesmo “tempo”, seus compositores. Defini-lo não é possível sem
que, na busca pelo conceito, não nos surpreendamos, sempre, no íntimo dele
próprio. A jornada diária se torna possível mediante a execução de inúmeras
frases rítmicas em vital organização, permanentes mesmo durante o repouso da
consciência, como, por exemplo, em nossa preciosa respiração. Sempre, em e por
nós, o tempo: meu relógio, meu metrônomo são meus espelhos abstraídos em
mecânica regularidade.
Existimos compondo
diversamente os conteúdos de nosso pensamento, aplicando descontinuidades sobre
e sob o presente imediato e quotidiano. No exercício de perceber e organizar
nossas vidas, alteramos os ritmos de nossos pensamentos e corpos que, por sua
vez, também nos alteram, segundo qualidades e quantidades variáveis. Suas
articulações podem nos proporcionar ansiedade, esperança, excesso, asfixia,
tédio, angústia ou a suspensão
pacificadora de seu fluxo na pausa e no silêncio.
De tanto existirmos por
contraponto e ritmo, podemos dizer que existimos musicalmente, mesmo sem nos
darmos conta ou desejar, pois o ritmo, este fluxo de arsis e thesis, impulsos
e repousos, tensão e distensão nos organiza assim como organiza a música. Ambas,
música e existência, se comportam no tempo e em suas qualidades: pulso,regularidades,
irregularidades, alteraçõesde andamento, pausas, retornos, simultaneidades que
se articulam, recebendo e organizando as mensagens e estímulos exteriores.
Contudo, na experiência
e elaboração contemporâneas do tempo, tendemos a priorizar a qualidade da
aceleração: a produção incessante, excessiva e descartável de informação,
confundida com expressão e comunicação, esgota o espírito, reduzido à interface, crescentemente
submetida a um ritmo alucinante de estímulos, captura, atenção, seleção e
decisão.
Esta
experiência de exaustiva elaboração ocorre num presente altamente contraído no
qual as mensagens e seus emissores se engalfinham por atenção imediata, achatando
lugares (todos os pontos do planeta conectados e acessíveis de qualquer ponto
no planeta) e tempos (a cobertura ou o acesso em “tempo real”), segundo o critério
do que pode ser lido em alguns segundos e poucas palavras: o conhecimento e mundo
segundo o Twitter. Neste presente,
nos proporcionamos cada vez menos tempo para ouvir, acolher e refletir.
De tão contraído, este
presente, hiper-povoado por mídias que não cessam de estimulá-lo, tem extrapolada
a sua capacidade de percepção, discernimento e resposta refletida, forçando o
exercício permanente e urgente de seleção; o pensamento vive sob tensão, sem
tempo para ouvir e constrangido a reagir o mais rapido possível.
Esta, digamos, guerra
tem algum objetivo? Sim, simular no menor tempo necessário o máximo de eventos possíveis,
selecionando os mais prováveis “futuros” a fim de evitar perdas; lida-se com informações
atualizadas on-line vindas de
quaisquer pontos do planeta e a todo momento.
O presente se processa
dentro duma cultura que inventou para si um outro real, um virtual hiper-denso
de informações permanentemente atualizadas e adicionadas, disponíveis à simulação
e que “transcende” as limitações do mundo físico; nele, os homens crêem ser possível
simular todos os efeitos sobre o real quotidiano.
Celebrado, este
universo, crido abstrato, apóia-se, de fato em eletricidade, mídias e programas
humanamente concebidos, muitas vezes por programadores e engenheiros sentados
em casa com seus pijamas; porém, esta óbvia constatação parece ser ignorada:
diariamente é empregado e reputado euforicamente como um Hiper-Real, um
descentrado sintetizador de cálculos abstraídos das atividades do real
concreto, cada vez mais esvaziado de sentido e beleza.
Neste tempo altamente
acelerado, apesar dos evidentes benefícios que suas mídias oferecem, o homem
contemporâneo torna-se cada vez mais desprovido da experiência do tempo da
escuta, do silêncio, da contemplação e da sensibilidade pacientemente
exercitadas. A ansiedade e inquietude cada vez maior observada entre adultos,
adolescentes e mesmo crianças diante de uma paisagem, um passeio ou uma simples
caminhada pelas ruas, incessantemente acessando suas redes sociais ou, pior
ainda, quando estão sem suas próteses midiáticas são espantosas.
Evidentemente, a história
humana concreta de sobrevivência e pensamento sempre se apoiou na capacidade de
organização dos estímulos recebidos ou selecionados de um meio a fim de
identificar seus padrões de ocorrência, riscos e conseqüências: organizados em
percepções, têm orientado as ações e conhecimentos constituidores da Cultura,
que também se define como construção de uma realidade, e seus territórios
físicos, apoiados na memória, individual e coletiva, a ser refinada e
transmitida.
Porém, neste universo Hiper-Real, o homem
extrapola em intensidade e ritmo a estratégia de sobrevivência, alterando
drasticamente critérios e métodos, não somente se pondo em permanente e ansiosa
vigília, que rapidamente organiza novas mensagens e estímulos, mas
simulando os próprios estímulos e riscos, sem que concretamente existam, que
possam trazer perdas. O pensamento coloca a realidade sob tensão, buscando-o instrumentalizar
mesmo que nada de novo nele se apresente.
Esta tarefa acelerada
produz efeito duplo: primeiro, o de fazer crer a qualquer um que se possui um
poder estonteante sobre a própria vida;
segundo, o de produzir um permanente desgate causada pela pressão em tomar
decisões com perda mínima. O que chamávamos
de “futuro”, dimensão aberta dos possíveis ainda não presentes, transforma-se,
no e pelo pensamento, numa imanente dimensão que deve ser toda calculada en avance, controlada no presente que, na
busca por mais eficiência nas decisões, altera a si próprio a cada instante de simulação,
inflando-se numa retroação dos “futuros” que não podem mais ter o poder de
surpreender.
De tanto simularmos e
produzirmos “futuros”, acabamos por exaurir o espírito pela necessidade
inventada de lidar com imensa quantidade de alteridades que entram sem aviso, à luz
do meio-dia, esvaziando-nos do tempo do silêncio. O “futuro” não é mais,
claro, o “Futuro”, o tempo aberto: a miragem do controle nos rouba a surpresa.
Vivendo assim, talvez sem querer perceber, ou percebendo, e qualificando as “mudanças”
como “inevitáveis”, estamos nos condenando ao nomadismo da mera diversidade, à
sua mera passagem descartável, não mais aguardando realmente esperança e saída.
Pessimismo? Não, pois este pessimismo se apresenta sempre como mais um “possivel”
tornado “inevitável”, condicionando o que pensamos ser e seremos. Ou seja,
outra armadilha da qual não precisamos
Neste hiper-real, o
homem, sem tempo suficiente para recuar e observar, passa a crer como inevitáveis
as suas próprias construções históricas e seus pseudo-futuros construídos sobre
o esgotamento. Frente a este panorama, cabe a pergunta: tal contexto aniquila,
desorganiza o contraponto que caracteriza a relação entre história, corpo e
pensamento? Se não, onde ela está? Se o tempo é dominantemente
acelerado, se os metrônomos só batem um andamento, se presente e futuro perdem
a distinção e os possíveis convergem sem cessar, o inevitável, que o qualifica,
nos reduzirá a isto mesmo, a este hic et
nunc, ou permanece, sob esta alucinação geral, um vento, um murmúrio
insistente a dizer que nada tem que ser assim?
Diante deste vento e
murmúrio e da mensagem que trazem, ou seja, a da existência de uma outra
experiência do tempo, a contínua aceleração, em seu paradoxal autismo, não
deseja conviver com o que entende apenas como “o mais lento” ou “menos eficaz”:
ela se sente violentada, entediada, incomodada; contudo, o contraponto permanece,
pois, paradoxalmente, esta avalanche de cálculos incessantes somente pode ser
aplicada às variáveis dos eventos que ocorrem, justamente, em ritmos diferentes.
Soberanamente e a contragosto da aceleração do presente, o vento continua a
trazer o murmúrio.
Transportado através
dos espaços e tempos, há, sim, este murmúrio, um permanente murmúrio, transcendendo
a todas construções históricas, ao tempo imanente ao pensamento, à aceleração, ao
Hiper-Real (falsamente transcendente), ao acelerador e aos cronômetros. O que
ele é e onde se pode percebê-lo, este anunciador de um real que desestabiliza
esta alucinação acelerada? O que ele vem dizer? Ele causa espanto, suspensão e
instaura um instante único, reatualiza a queda de cavalo e a cegueira que diferentemente
passas a ver.
Este murmúrio é o
convite de Deus através da história da humanidade, para além de suas concepções
de tempo enquanto realidade apenas imanente, de suas reiteradas e reformuladas
tentativas de possuir o conhecimento de tudo, de ser autônoma e realizada
independentemente de Seu Criador; este murmúrio-convite continua a revelar que o
tempo não se reduz à sua imanente construção; em contrapartida, o homem contemporâneo
tenta, em seu deserto, reconstruir um Éden tecnológico e passa a vida entre
euforia e expulsão.
Falemos deste murmúrio
e de sua presença no interior desta cultura, como causador de estranheza ao modo
dominante de “ser-eficaz” acelerado, além da existência que se engana autônoma,
do achatamento das dimensões temporais e da perda do silêncio: como pode se
fazer ouvir? Como se põe disponível aos ouvidos que o querem ouvir?
2.
No campo: murmúrio e musica
O murmúrio fala mais
profundamente do que a verborragia do nosso tempo. Ele sabe tocar a corda mais
necessitada de afinação, a mesma que impele o homem a tentar desesperadamente
um bem estar pelo cálculo e controle ilusórios.
O vento que conduz este
murmúrio se manifesta quando e onde quer. Quando o faz pela arte, atinge-nos o coração
e a razão, estas “cordas-pensamento”, nos arrebata, dando-nos olhos para ver e
ouvidos para escutar.
O murmúrio comporta a
beleza; segundo Von Balthazar, esta beleza, terrena e sensível, realizável
mediante o árduo acordo entre sensibilidade, técnica e disciplina que lhe dá a forma,
pode ser a tradução para “o sublime
atributo do Ser Divino, que é conhecido
como Glória (kabôd, doxa, gloria)”
(Balthazar, H.U. von, Beleza Terrena e Glória Divina in Communio, p. 911) ,
ocorrendo como e quando Ele quer. Esta beleza na música, compreendida no equilíbrio
entre o conteúdo, comunicado por Deus, e forma, constituída e organizada de
melodias, ritmos, harmonia, dinâmicas, se apresenta como manifestação sensível
de Sua Glória.
3. Campo de serviço
A música é meu ofício.
Na busca quotidiana de equilíbrio entre o trabalho técnico-expressivo e sua vocação
como manifestação sensível, ocorrem comunicação e arrebatamento; diariamente, o
trabalho denso e refinado é posto a serviço desta maravilhosa ação
de Deus, provendo os meios expressivos à beleza presente no canto-oração.
E de que música e repertório
estamos falando neste caso particular? Do canto litúrgico denominado, por convenção
histórica, gregoriano,
curiosamente tão citado e admirado, mas tão pouco conhecido e estudado. Ele habita
um lugar de paradoxos, onde o tempo é construído
pela inclusão de pausas e silêncios de durações não pré-determinadas e fixas que
redimensionam o texto sagrado em latim, pondo-se em harmonia com a prosódia a
fim de revelar um sentido profundo pleno de reverberações, numa comunicação de
natureza temporal distinta, muito distinta, da que estamos habituados.
Este canto, originado
do encontro entre os repertórios, liturgias e tradições das igrejas romana e
gaulesa é, em suas origens e percurso histórico, expressão musical da Palavra de Deus, em sua
inesgotável e profunda riqueza semântica e espiritual. De sua função original
como expressão lírica das leituras constuintes da liturgia, em especial a da
Vigília Pascal, prosseguiu sendo elaborado em relação direta com as transformações
operadas na liturgia, ambas orientadas pela revelação e compreensão renovadas
desta Palavra de Deus.
Desde estes tempos e
iniciativas primordiais, este repertório a serviço da liturgia, de natureza tão
rica, permanece mobilizando tanto religiosos quanto leigos, que o ouvem e
interpretam. No entanto, ele sempre escapa, se retira, deixando apenas sua aparência
sensível, sempre que se propõe a executá-lo mecanicamente baseando-se em chavões
rítmicos, fórmulas de execução excessivamente padronizadas, carentes de
permanente reflexão, o que denuncia, de certa forma, uma perda da referência
espiritual que anima sua forma. Ele escapa discretamente às tentativas de imposição
da temporalidade, objeto deste artigo, ou de sua simétrica redução a uma regularidade
rítmica monótona, projeções das culturas musicais e sensibilidades dos agentes
inseridos num momento histórico e sua e sua temporalidade.
4.
O caminho de volta ao campo
Após esta breve
caracterização do canto litúrgico, nascido na complexa passagem da Antigüidade
à Idade Média, como expressão sensível da Palavra de Deus como componente da
liturgia, é o momento de pensar em como ela e a mensagem que expressa questionam
este presente contraído que criamos e em que vivemos.
A busca pela questão e
sua resposta se inicia ao se voltar o olhar ao passado e ao momento em que se
origina uma relação nova entre presente e passados: o final do século XVIII, quando
surgem diversas iniciativas de pesquisa e execução de repertórios musicais, que
os ingleses denominam Early Music, em que se manifesta uma
perspectiva completamente diferente em relação às obras musicais mais antigas.
Este movimento cultural
se enriquece com o surgimento de uma iniciativa que articula música sacra e
reforma litúrgica,
realizada mediante um ousado e disciplinado método de pesquisa criado e
desenvolvido pelos monges beneditinos do mosteiro francês de Saint-Pierre de Solesmes
e iniciada sob direção do seu Abade Dom Prosper Guéranger O
objetivo era tentar recuperar o que ele acreditava ser o autêntico canto
gregoriano, em contraposição ao canto deformado e transmitido desde o século
XIV até o início do século XIX. Mediante trabalho investigativo permanente de
levantamento, organização, decifragem e interpretação das notações presentes
nos manuscritos e sua crítica, diversas publicações e gravações, contendo os
repertórios dos ofícios e missas, foram e continuam sendo produzidas.
O longevo trabalho
dedicado ao canto gregoriano também foi levado adiante por musicólogos,
artistas e instituições, religiosos ou leigos, muitos profissionais, que
propuseram concepções distintas para a performance.
O conjunto destas iniciativas, somadas a de Solesmes, revelaram ao público um
repertório remoto que suscita permanente interesse e admiração.
Diante deste movimento cultural, de sua
atitude face aos passados e, mais especificamente, o fenômeno de mobilização em
torno do canto gregoriano, cabe perguntar: por que este interesse e admiração? Seria
uma mera nostalgia ou curiosidade ou haveria necessidade de se encontrar uma
alternativa a este presente sufocante, sua insuficiência e ilusão de poder, se
expressando na busca, mesmo inconsciente, por alguma forma que conjugue e dê
expressão à beleza e à espiritualidade? Como este canto, em sua constituição
formal, se relaciona e se oferece enquanto expressão à forma e ao sentido do
texto sagrado, tão necessário a este tempo atual e o pondo em questão?
Como já dito
anteriormente, estes repertórios nos são apresentados por intérpretes
orientados por diferentes critérios e concepções estético-espirituais, por sua
vez influenciadas por seus contextos históricos e culturais; conforme interpretado
segundo a concepção rítmica equalista de Solesmes, percebe-se diferenças
significativas em comparação às interpretações de mosteiros alemães, espanhóis,
grupos profissionais ou adeptos de diferentes concepções, incluindo-se as mensuralistas.
Esta diversidade dá prosseguimento
à dinâmica de trabalho dos antigos mestres de canto e escribas entre os séculos
IX ao XI: diferentes formas de interpretação e execução de um mesmo gradual ou communio eram distintamente registradas, observando-se os gestos e
detalhes de execução propostos pelos chantres,
mediante a elaboração de sinais que expressavam, nas notações musicais neumáticas
em formação, as variantes rítmicas, melódicas e expressivas concebidas no
quotidiano de diferentes mosteiros.
Estas variantes, em
nada negligenciáveis, manifestam as ressonâncias que melodias e textos
produziram nos coros, mestres de canto e escribas, inseridos em seus contextos
culturais e linguísticos: o Intróito Ressurexi,
da Missa do Dia do Domingo da Ressurreição (SOLESMES, Abbaye Saint-Pierre de, Graduale Triplex. 1979. p. 196) apresenta
o mesmo texto, antífona e versículos extraídos do Salmo 138 e reordenados;
porém, é registrado em diferentes manuscritos (Laon 239 e Einsiedeln
121) com importantes variantes, especialmente rítmicas.
5.
Os signos do campo
Estas variantes,
presentes em diferentes escolas de notação musical, surgem
para atender à necessidade de transmissão, manutenção e execução de um repertório
cuja quantidade e qualidade crescentes impunha dificuldades à confiança depositada
tradicional e exclusivamente na memória e transmissão oral. Os mestres de canto,
escribas e teóricos passam a procurar formas de registrar graficamente os
componentes melódico-rítmicos e as essenciais nuances expressivas da execução;
torna-se necessário criar uma linguagem capaz de fixar, ao olhar, o sonoro, ou
seja, a expressão vocal do texto
sagrado e as diferentes percepções de sua riqueza semântica.
A iniciativa gerou um
conjunto riquissimo de linguagens gráficas, denominadas “neumáticas” devido à
invenção, adaptação e emprego de sinais gráficos, os neumas; da
observância e reflexão atenta do texto sagrado e à execução das melodias,
existentes ou em composição, tornou-se possível compôr sinais cujo próprio
desenho e articulações traduzem a composição e execução. Da prosódia do texto
latino, emerge uma base rítmica composta de sutis variações sobre
a qual se aplica um pulso rítmico regular que lhe confere sentido, permitindo a
sincronia necessária à performance em
coro.
Contudo, a invenção e adoção,
a partir de meados do século XII, da, então recente, nomenclatura das notas, de
seu posicionamento em linhas e espaços,
organizadas relativamente às claves móveis, que indicavam claramente a posição das notas Ut (Dó) ou Fá, permitem precisar as alturas, ou notas, absolutas
das melodias. Como resultado, os manuscritos existentes e compostos in campo aperto (em que os neumas eram posicionados sem uma linha de referente
a uma nota fixa), ou os diastêmicos
(em que os neumas eram dispostos em diferentes alturas em torno de uma ou duas
linhas), aqui e ali, e em momentos diferentes, passam a ser substituídos. Os
conjuntos dos neumas das diferentes escolas são traduzidos, no novo sistema,
por abstração do elemento melódico e de sua adaptação a valores de duração pré-concebidos;
o novo procedimento desmembra os neumas em sinais padronizados, quadrados e
losangulares, extraindo as importantes variantes rítmica, dinâmica e de
fraseado.
Com o desenvolvimento
da polifonia, em especial na Escola de Notre-Dame de Paris, a chamada musica mensurata, as diferentes
teorias e padrões de medição do tempo das notas tornam-se um necessário
instrumento de organização que informa aos executantes as durações das notas,
evitando-se que sejam cantadas juntas no momento errado, o que produziria dissonâncias
indesejadas e invibilizaria a execução.
No entanto, estas
crescentes e necessárias teorias e práticas afetam negativamente o canto
gregoriano, pondo a perder sua íntima relação rítmica com o texto latino
mediante a regularização a priori das
durações, do alongamento artificial dos neumas,
achatando todas as observâncias longamente elaboradas entre texto e melodia:
nasce o cantus planus, o plain-chant, o
desfigurado cantochão, segundo o testemunho do dominicano Hyeronimus de Moravia,
ou Jérôme de Moravie, mestre em Paris no século XIII.
6. De volta ao campo dos lirios
Após voltar o olhar ao
passado e os elementos constituintes do canto litúrgico, voltemos às questões
iniciais; para prosseguir na busca por respostas, é preciso abstrair um aspecto
deste interesse pelo canto; ao voltar a atenção
às obras dos passados, parece que o presente se questiona,
que cessa, mesmo que por alguns minutos, de olhar obsessivamente a si próprio. Pára
e respira. A operação que se impõe não é
mais uma vez a de lidar com a enxurrada de informações e cálculos, mas, de atenção e
recepção que se constróem a passos mais lentos. Difícil mudança de
atitude, tão viciado está o pensamento nesta impaciente aceleração. PAUSA
Este pensamento
presente, anteriormente hiper-contraído, passa a ouvir e desacelera,
distende-se; um diálogo se instaura: o presente começa a retomar sua anterior densidade
contrapuntística, as dimensões temporais se destacam. Diante desta audição dos
passados, põe-se o pensamento a experimentar um tempo musical onde as pausas e
os silêncios são essenciais.
Este novo estímulo
desorganiza o território conhecido; as relações a serem reorganizadas entre
tempo musical, corpo e espirito constróem um novo presente, no qual o
acolhimento da presença de Deus, traduzida em beleza, redireciona a existência.
Pôr-se em comunhão mediante a audição atenta deste texto sagrado em música
dissolve aos poucos este território ilusório de controle, de individualismo, de
pressão. Progressivamente, abre-se o
homem, não sem dificuldade e receio, a um tempo da audição em que os muitos
elementos da síntaxe e gramática musicais se mostram em íntima relação com os do
texto sacro, proporcionando a experiência da beleza e da Glória de Deus.
Paradoxalmente, esta
necessidade de reorganização de território, de pôr-se vigilante face ao presente
do controle imanente, mostra-se necessária até mesmo entre religiosos, também
absorvidos neste presente contraído, acelerado, demasiadamente humano, em que
parece não sobrar tempo para o cerne da vida religiosa. Um sintoma está na execução
descuidada, irrefletida, automática que não se abre e nem percebe como se
articulam positivamente a espiritualidade, a adoração, a forma musical e o trabalho
minuncioso preparatório, frutos de séculos de ciosa e refletida
elaboração, necessários para se
encontrar e refinar a expressão musical orante mais adequada à comunicação da absoluta capacidade que Deus possui de nos
tocar e transformar.
Esta revelação passa também
por uma pedagogia da atenção, da escuta, da respiração, da emissão, pela interpretação
dos neumas, que gerações nos legaram, não como meros esteticismos ou apenas técnica,
mas como elementos de louvor que aperfeiçoam a expressão das riquezas do texto
sagrado: o preparo, ensaio e estudo da voz e do repertório auxiliam na santificação
do espírito e do corpo. Seu uso educado é direcionado ao melhor serviço possível
a Deus.
Cremos que a resposta
para a questão do texto pode ser a seguinte: o homem tem necessidade de paz e
silêncio para acolher a presença comunicante de Deus, mesmo que acredite não
precisar ou nem pense nisso. É uma necessidade profunda, sua corda
mais íntima que a experiência dominante de tempo, que ele mesmo inventou e
adotou como resposta à vida, não consegue tanger, pelo contrário,
a exaure, aprisiona, adoece e a única compensação que oferece é a
da ilusão de controle, segurança e o hedonismo que promete suprimir contrariedade
e sofrimento. Ao se interessar, episódica ou tenazmente, pela música dos
aparentes passados, mas que comportam valores e elementos eternos, ele está
tentanto encontrar esta paz, este silêncio e pelo menos um instante de transcendência
e beleza que o resgate da loucura. Esta música-oração é um instrumento denso de
comunicação da presença amorosa de Deus que mostra ao homem que ele não está só,
refém das suas proprias invenções e ilusões de auto-suficiência.
7.Conclusão
A beleza surpreende,
comove, edifica, proporciona a experiência do bem e da verdade, por ela também
Deus se comunica. Ao nos compreendermos sob um ponto de vista que nos revela
como seres musicalmente constituídos e organizados, nos colocamos à escuta e contemplação
desta beleza
O canto gregoriano é
constituído de uma diversidade rítmica que, em simpatia com nosso pensamento
contrapontual, dissolve a rigidez imanente deste presente implácavel. A audição
atenta e aprofundada enfraquece a miragem da auto-suficiência e controle; o
poder ilusório do hiper-real se mostra em sua verdadeira perspectiva e alcance,
sua ilusão totalitária, pois novamente entendemos o cuidado que Deus tem por nós,
recuperando, o real sentido do presente e do tempo, em que Ele é o agente acima
das nossas concepções históricas.
Em seu estudo e execução
enquanto oração cantada, o homem pode lembrar que sua vida não consiste em
preocupar-se com que haverá de vestir, comer, morar, pagar contas, arrumar
coisas, calcular riscos para a saúde e orçamento, pois estas preocupações, necessárias
mas não essenciais, sob a miragem do presente exausto de informação e cálculo,
lhe rouba justamente a vida plena, diante do permanente exercício de pagar uma dívida
infinita com a “qualidade de vida” em que tudo pode haver, menos a vida.
Em suma, tornar-se lírio
do campo.
Referências
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